Caro professor, seja mais ignorante!

Você já se questionou por que uma pessoa precisa explicar algo para outra? O sistema educacional atual ainda é muito baseado em uma espécie de hierarquização dos saberes.

De forma geral, o professor precisa saber mais do que o aluno, para que o aluno seja capaz de aprender algo. Ou seja, deve existir uma inteligência superior e uma inteligência inferior, sendo obrigatória uma relação de obediência do estudante para com seu mestre.

Os fundamentos atuais da Pedagogia se mantêm ancorados na lógica de um conhecimento instrutivo e transmissivo como forma de alcançar a aprendizagem e como caminho para a ascensão educacional e social. Ao professor, caberia transmitir conhecimentos, ordenar a mente de estudantes e desenvolver a capacidade cognitiva por meio de explicações conteudistas e enciclopedistas.

Esse conhecimento é fragmentado e transmitido em fascículos, tornado os alunos dependentes dos seus professores para terem acesso ao pleno conhecimento.

O professor, hoje, transmite o conhecimento de forma explicativa, como se ele sempre estivesse um passo à frente do seu aluno. Mas seria possível ensinar sem explicar? Há outros caminhos possíveis para mudar o quadro da educação? Esse é o tema estimulante e polêmico do artigo de hoje, confira!

Lições para a emancipação intelectual na educação

O mestre ignorante: Cinco lições sobre a emancipação intelectual é uma obra de autoria do filósofo francês Jacques Rancière, que propõe reflexões com as quais todo professor pode um dia se deparar, como “Por que e para que você ensina?”.

Escrito na forma de narrativa, o livro conta a história de Joseph Jacotot, um professor francês do século 19 que foi convidado a ministrar aulas para uma classe de estudantes que apenas falavam holandês. Uma língua que o professor desconhecia.

Diante dessa situação, o professor utilizou um método não convencional. Pediu para que seus alunos estudassem o livro didático em francês com ajuda de um dicionário bilíngue. Dessa forma, o professor estava emancipando seus alunos, incentivando-os a estudar com sua própria inteligência.

O professor se surpreendeu ao perceber que os alunos aprenderam o conteúdo, sem que ele precisasse dar uma única explicação. “Seria então inútil a explicação?”, refletiu ele.

Jacotot cunhou o “Princípio de Emancipação”, em que é possível ensinar qualquer coisa, mesmo desconhecendo o assunto, desde que o aluno seja estimulado a desenvolver sua própria inteligência.

Nessa visão, ele mostra que é possível ensinar sem explicar. Caberia ao estudante o próprio desejo de aprender estimulado pelos desafios propostos pelo mestre.

A emancipação é uma oposição ao que Jacotot chamou de “Princípio Embrutecedor”, em que o professor transmite o conhecimento dividido em partes e o aluno aprende de forma fragmentada, sempre em dependência do que está por vir. Soa familiar?

Esse método cria uma relação distante entre o aprendiz e seu professor, deixando este em uma posição perpétua de superioridade.

Igualdade de inteligências entre aluno e professor

O livro de Rancière propõe uma sociedade de emancipados, em que não existiria a desigualdade de inteligências. Jacotot defende um princípio da “igualdade de inteligências”, que afirma que todos somos igualmente inteligentes e podemos aprender qualquer coisa, basta que estejamos “emancipados” e com ambição de sempre querer aprender mais.

Esse processo é chamado por ele de “ensino universal”. O desejo de aprender, entender e ser compreendido seria a força motriz por trás da aprendizagem.

A relação muda totalmente quando o professor entende que seu aluno é tão inteligente quanto ele mesmo. Desde nossas primeiras palavras esboçadas durante a infância, o processo de aprendizado ocorre na base da experimentação, com tentativas, comparações, erros e acertos. Por que o sistema educacional seria diferente?

“O aluno do mestre ignorante aprende o que o mestre não sabe, já que o mestre fala para ele procurar alguma coisa e recontar tudo o que descobriu no caminho”, afirma Rancière no livro.

O conhecimento continua sendo o único caminho para a consciência crítica. Dessa forma, nosso papel de líderes e educadores demanda que assumamos essa igualdade de inteligências e saibamos providenciar os estímulos adequados para que os alunos emancipem-se e construam a própria aprendizagem.

Devemos controlar nossa ânsia por querermos estar sempre certos e no comando da aprendizagem, adotando estratégias mais empáticas e autocontrole, dizendo mais vezes “Não sei” e “O que você acha?”, como forma de incentivar os estudantes a buscarem as próprias respostas para as questões levantadas.

Isso trará maior autonomia, emancipação, protagonismo e liberdade para o processo de aprendizado. Para sintetizar essa ideia, finalizaremos com um pensamento de Jacotot trazido no livro de Rancière: “Educação é como liberdade: ela não é recebida, é conquistada!”.

E você? Como enxerga a relação de hierarquia de aprendizado do nosso sistema educacional? Qual deve ser o papel do professor no ensino? Concorda com o Princípio de Emancipação? Compartilhe sua opinião conosco nos comentários!

Ficou interessado? Então sugerimos uma leitura complementar, escrita do ponto de vista do professor facilitador e integrante da Manifesto 55, Diego Dornelles: “E se eu não souber a resposta?

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