A importância de ensinar a empatia na sala de aula e também fora dela

A empatia é o sentimento que liga as pessoas umas às outras; é a prática de conectar-se ao outro. Captar o que a outra pessoa está sentindo.

Vivemos em sociedades industrializadas, complexas e hiperconectadas, em uma modernidade líquida, como defendia o sociólogo Zygmunt Bauman, em que as relações e as noções morais são, por vezes, fluidas e a preocupação com o outro nem sempre é uma prioridade. Nesse cenário, a falta de empatia pode ser associada a problemas como o bullying, a intolerância, o preconceito e a violência.

Em 2011, durante a conferência anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, nos Estados Unidos, uma equipe de pesquisadores apresentou dados de que a falta de empatia em crianças entre 7 e 12 anos pode ser sinal de futuros atos antissociais, podendo suscitar até mesmo comportamentos severamente violentos, tornando-se em um risco para psicopatia na fase adulta.

É importante ressaltar que ensinar empatia para as crianças, em casa ou nas escolas, não é torná-las “fofas”, mas fazê-las entender a visão e os valores do próximo, a colocar-se no lugar do outro.

A habilidade empática pode ser positiva para o futuro das crianças ao promover a satisfação nos relacionamentos, aumentar a habilidade de superar adversidades, de lidar com diferenças e conflitos e trazer benefícios na saúde, nos estudos e na carreira profissional.

Esse assunto tem gerado discussões a partir do desenvolvimento da versão final da proposta da nova Base Nacional Comum Curricular. Que tal tentarmos desenvolver conjuntamente uma visão empática sobre esse assunto polêmico?

As competências do século 21 da Base Nacional Comum

O debate sobre a reforma do ensino brasileiro é antigo e é considerado um assunto polêmico. Felizmente, a inclusão de competências socioemocionais no currículo estudantil pode estar perto de se tornar realidade.

Discutido desde 2015, o texto da Base Nacional Comum foi criado a partir do Plano Nacional de Educação (PNE). O documento prevê um conteúdo mínimo que deve ser ensinado da creche ao ensino médio, em todas as escolas municipais, estaduais, federais e particulares. O objetivo do governo é ter a versão final do texto para o ensino infantil e fundamental neste primeiro semestre e, para o ensino médio, até o segundo semestre de 2017.

A proposta-base deverá contar com três macro competências: as socioemocionais, as comunicacionais e as cognitivas (conteúdos das disciplinas). A inclusão das habilidades socioemocionais, como empatia, cooperação e liderança, assim como a competência comunicativa, devido às múltiplas linguagens do mundo atual, visam promover uma formação mais completa para os alunos, muito além das disciplinas que já existem tradicionalmente na grade escolar.

Em sua segunda revisão, o texto indica que um dos direitos de aprendizagem é “conviver e fruir das manifestações artísticas e culturais da sua comunidade e de outras culturas – artes plásticas, música, dança, teatro, cinema, festas populares – ampliando a sua sensibilidade, desenvolvendo senso estético, empatia e respeito às diferentes culturas e identidades.”

A ideia é desenvolver nas crianças o respeito à diversidade, a capacidade do diálogo e a criatividade. Para quem tem dúvidas sobre a efetividade disso, uma dica é conhecer o exemplo da Dinamarca, que investe há décadas no ensino de empatia em sala de aula e é, hoje, considerada uma das nações com os cidadãos mais felizes.

Estimulando a empatia dentro e fora da sala de aula

Uma sala de aula pode ser a oportunidade para o início de muitas revoluções pessoais. No modelo de ensino atual, muitas vezes o foco está no desenvolvimento de competências técnicas, voltadas ao mercado de trabalho, e não no desenvolvimento do indivíduo. Um exemplo de como mudar isso, pode ser visto no movimento Escolas Transformadoras.

Sem o ensino da empatia na infância, a relação do aluno com colegas, professores e a sociedade de forma geral, podem ficar superficiais, sem espaço para cooperação, compreensão e solidariedade.

O ensino da empatia – essa é uma habilidade que não é nata e que pode, sim, ser desenvolvida e treinada – deve iniciar já dentro de casa e ser complementado e reafirmado na escola. É importante que os pais e professores orientem as crianças a lidarem com as suas emoções, sendo elas positivas ou negativas, entendendo quais são as necessidades e perspectivas dos pequenos e ajudando-os a lidarem com os sentimentos, comportamentos e emoções de quem está à sua volta.

Quando uma criança percebe como violento um comportamento de um amigo, ela deve ser aconselhada a tentar entender o que motivou tal comportamento. Talvez o amigo tenha sido castigado, esteja chateado com algum problema particular ou tenha experimentado a frustração de alguma expectativa.

Quanto ao aluno que teve um mau comportamento, é necessário que ele receba um feedback do porquê esse comportamento não é apropriado, fazendo-o entender que suas ações podem gerar efeitos negativos sobre os outros.

Outra forma de ampliar sua visão de mundo é estimulá-lo a ler livros, assistir a filmes, séries e animações que retratem outras culturas, ampliando sua perspectiva sobre os diferentes pontos de vista de uma mesma coisa. Saindo da zona de conforto, a criança começa a perceber o mundo de forma mais diversa, o que favorece o desenvolvimento de sua capacidade de sentir empatia por outras pessoas.

Empatia nas organizações

No ambiente das organizações, a empatia favorece a criação de ambientes colaborativos e ajuda as pessoas a lidarem melhor com conflitos e imprevistos em suas relações pessoais e profissionais.

Por isso, as organizações precisam rever valores e práticas para incorporar a empatia no ambiente de trabalho e nas relações entre colaboradores, clientes, parceiros e demais stakeholders. É preciso que todas as partes integrantes percebam seu papel na transformação social e organizacional e saibam desenvolver relações saudáveis e empáticas.

De acordo com a pesquisadora e escritora norte-americana Brene Brown, há quatro qualidades associadas à empatia:

  1. Capacidade de tomar perspectiva, ver o ponto de vista do outro.
  2. Ausência de julgamento.
  3. Reconhecer emoções em outras pessoas.
  4. Saber comunicar essas emoções.

Há o estereótipo de que o brasileiro é um povo muito aberto, tolerante e empático. No entanto, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade do Estado do Michigan, entre os 63 países pesquisados, o Brasil encontra-se na 51ª posição entre as nações mais empáticas.

Em um momento de crise não apenas financeira, mas de modelos organizacionais, de liderança e de valores, a empatia pode ser uma competência fundamental para estimular a cooperação e o trabalho conjunto, a criação de novas perspectivas e uma transformação de realidade.

Você tem alguma dúvida ou sugestão sobre como incentivar a empatia dentro e fora da sala de aula? Conhece algum exemplo ou experiência sobre esse assunto? Publique sua mensagem nos comentários e vamos juntos criar uma visão plural sobre o assunto!

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