O APRENDIZ EMANCIPADO: a arte de promover a participação em sala de aula

O texto “Caro professor, seja mais ignorante”, inspirado no livro O mestre ignorante: Cinco lições sobre a emancipação intelectual, de Jacques Rancière, nos fez refletir sobre o mestre emancipador, aquele que guia o processo de aprendizagem sem se colocar como centro dele, preparando a pista para que seus alunos decolem. Hoje, vamos olhar para a outra face da moeda: o aprendiz emancipado.

Para que o mestre seja emancipador, é essencial que os aprendizes sejam emancipados. Assim, vamos falar sobre o princípio da emancipação e sobre o que realmente significa ser um aprendiz emancipado. Também veremos como garantir a participação em sala de aula, trabalhando para uma aprendizagem mais engajada.

Vamos juntos?

Princípio embrutecedor x Princípio emancipador

Nosso sistema de ensino funciona a partir de uma hierarquização de inteligências. De um lado há o aluno, entendido com um receptáculo de informações; do outro, há o professor, transmissor dessas informações. À hierarquização entre essas duas inteligências e o distanciamento que ela gera entre os participantes do processo educativo, Rancière dá o nome de “Princípio embrutecedor”.

O contraponto surge com o Princípio emancipador, que se estabelece a partir de uma igualdade de inteligências entre mestre e aprendiz. Aqui, eles são entendidos como dois agentes de um mesmo processo, que transforma a ambos.

Assim, não é mais função do professor explicar a matéria aos alunos a fim de preenchê-los com conteúdo, mas guiá-los por meio de um percurso com obstáculos, para que eles próprios desenvolvam sua inteligência, tomem as rédeas de seu aprendizado e conquistem seu conhecimento.

Perceba que a presença do professor é indispensável nesse processo, mas o fator da hierarquia entre as inteligências é dispensável. O princípio emancipador parte do pressuposto de que qualquer pessoa pode aprender ou ensinar qualquer coisa, desde que haja emancipação para tal. Por emancipação, entenda ambição, vontade, desejo de aprender.

O aprendiz emancipado

Em O mestre ignorante, Rancière conta como um grupo de alunos que não falava o mesmo idioma de seu professor conseguiu aprender um conteúdo proposto no idioma estrangeiro. Sem aulas expositivas, sem explicações, sem bê-á-bá enciclopédico, apenas instruções simples e material didático adequado.

A partir da experiência, fica claro que a aprendizagem não é um processo passivo de transmissão de conhecimento, mas um ativo, de troca, de desafio, de busca e superação. Nesse panorama, o aprendiz emancipado é aquele usa a própria inteligência para construir sua educação.

O aprendiz emancipado não é o aluno receptáculo, mas o aluno cidadão, a quem é dado a oportunidade de empregar sua inteligência e sua bagagem de vida na construção de seu conhecimento. O caminho para se conseguir uma turma de alunos emancipados, que participem ativamente das aulas, que tenham sua curiosidade e vontade de aprender instigados, será construído com ações/dinâmicas de aprendizagem criativa e não mecânicas.

Algumas palavras-chave que descrevem o dia a dia do aluno emancipado são: espontaneidade; curiosidade; questionamento; inconformismo; formulação das próprias respostas.

O caminho da emancipação, ou como promover a participação em sala de aula

Sabemos que há exceções a essa regra, mas, normalmente, a escola age como um entorpecente de vontades, de engajamento e ações cidadãs. Cada aluno, cada ser humano, com suas diferenças de habilidades e interesses, é condicionado a repetir as mesmas e batidas ideias, as mesmas e batidas receitas, do momento em que ingressa até o momento em que se forma.

Ir na contramão desse processo significa encontrar os estímulos certos para fazer cessar esse efeito entorpecente e incentivar a vontade, a espontaneidade e a curiosidade como forças motrizes da aprendizagem.

A seguir, compilamos algumas ideias de como promover esse processo e lecionar conforme o princípio emancipador de Rancière. Confira!

1.    Cada aprendizado, um desafio

Uma das metodologias que mais pode contribuir para esse processo de emancipação dos alunos é o Problem-based Learning, ou “aprendizado baseado em problemas”. Essa dinâmica pressupõe apresentar um conteúdo novo na forma de um desafio, fazendo com que o aluno se engaje ativamente em sua resolução, utilizando criativamente recursos e habilidades que já domina, enquanto adquire novos.

A metodologia funciona ainda melhor quando os desafios propostos são interdisciplinares, ou seja, demandam mais de um campo do saber.

2.    Conexão dia a dia

Outra forma de despertar o engajamento e incentivar a participação em sala de aula é relacionar o que será aprendido com a realidade dos estudantes. É trazer para o centro da aula o que eles já sabem, já vivem, já experimentam, para que sua vivência funcione como o elo com o conteúdo.

Pensar a matéria a partir do ponto de vista da turma favorece a participação ativa e ajuda a desenvolver uma inteligência mais calcada na realidade, já que amarra as informações e saberes das disciplinas isoladas com as experiências concretas do dia a dia.

3.    Escolhas, escolhas

Em vez de sempre chegar com um caminho traçado e ações definidas, você pode dar escolhas aos alunos. Essa atitude vai exigir de você, como mestre emancipador, muito mais preparação do que o normal, já que a escolha não será completamente aberta, mas condicionada.

Você apresentará dois ou três caminhos potenciais a serem percorridos, duas abordagens para o mesmo problema, e deixará que os alunos decidam a partir dessas opções.

4.    Facilitação como abordagem didática

Utilizar a facilitação em sala de aula também é uma boa forma de garantir o engajamento dos estudantes. Por meio de técnicas e ferramentas específicas dessa forma de mediar interações, os facilitadores de aprendizagem abrem espaço para o diálogo, para a cocriação, e para a participação em sala de aula.

 

Assim como a sociedade, a educação também se transforma ao longo dos anos. Aqui na Manifesto, identificamos que o Princípio emancipador terá um papel fundamental nessa transformação. Especialmente porque, a partir dele, percebemos a aprendizagem como um fenômeno ativo, uma jornada participativa e dinâmica que deve ser empreendida pelos alunos, ou aprendizes emancipados, com auxilio do professor, que é o mestre emancipador.

Gostaríamos de finalizar o artigo de hoje com um pensamento do educador Paulo Freire, renomado Patrono da Educação Brasileira: “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.

Para você, como esse pressuposto se relaciona ao Princípio emancipador? Reflita e deixe um comentário, compartilhando conosco sua percepção a respeito desse assunto.

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Escritora formada em História pela UFSC e mestra em Antropologia pela Goldsmiths University of London. Otimista inveterada e romântica incurável, sonha com um mundo mais consciente e criativo. Para ver esse sonho se tornar realidade, dedica-se a pesquisar e a escrever sobre educação e comportamento humano. Desenvolve conteúdo para web em parceria com a Manifesto 55 e mantém a plataforma anahenrique.com.

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