V.U.C.A e o trabalho interior da liderança

por Toni Barros, Maestria Plena

Imagine o seguinte cenário: mudanças inesperadas, voláteis e repentinas. Incerteza, informações importantes desconhecidas, duvidosas ou imprecisas. Múltiplos interesses, interações complexas e ambiguidade na interpretação da mesma situação. Parece familiar?

Essas condições caóticas são representadas pelo acrônimo VUCA, (Volatile, Uncertain, Complex and Ambiguous), em inglês. Podemos traduzir o termo como VICA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo). Termo encontrado no cenário militar moderno mas que descreve muito bem o ambiente no qual os negócios são conduzidos, todos os dias.

Diante dessa realidade, temos um grande desafio para a liderança e para o impacto dos programas de desenvolvimento, o que provoca a necessidade de uma nova gama de competências.

Entre as novas competências relacionadas ao mundo VUCA, uma das quais os líderes mais precisam desenvolver é um alto nível de Prontidão Cognitiva, que é a preparação mental, emocional e interpessoal para a incerteza e o risco. (Hagemann & Bawany, 2016).

Vamos compreender quais são as características dessa competência e como podemos desenvolvê-la?

Prontidão cognitiva

Apenas o tradicional pensamento crítico não é mais suficiente para liderar no ambiente complexo e em movimento rápido de hoje.

Por muito tempo o desenvolvimento de lideranças focou na análise de dados, reconhecimento de padrões, redução de discrepâncias e conclusões lógicas. A prontidão cognitiva complementa a capacidade do líder ao enfatizar habilidades não-racionais e não-lógicas.

As características dessa competência podem ser comparadas às valências físicas que desenvolvemos quando treinamos nosso corpo na academia. Quando malhamos e corremos, estamos desenvolvendo força, resistência e velocidade, por exemplo.

Da mesma forma quando treinamos nossa mente, podemos desenvolver uma série de valências. Algumas delas são:

  • Consciência situacional – envolve estar ciente do que está acontecendo ao redor, sem reagir imediatamente, para entender como a informação, os eventos e os nossos próprios sentimentos e ações afetarão metas e objetivos.
  • Controle atencional – manter o foco. Sustentar a atenção na intenção, mesmo em meio à pressão ou ambientes caóticos.
  • Metacognição – capacidade de aprender como aprendo ou de prestar atenção como presto atenção. Por exemplo, ser capaz de perceber quando me distraio e perco o foco.
  • Resiliência emocional – lidar com a complexidade e a incerteza sem estressar-se ao ponto de perder o equilíbrio. Capacidade de responder com calma, clareza assertividade ao sofrer o impacto de um evento negativo.
  • Intuição – ver internamente, contemplar o conhecimento original. Complementa o conhecimento analítico com recursos que permitem perceber, discernir e pressentir o futuro que está emergindo. Essa é uma chave para a inovação.
  • Adaptabilidade – a forma como encaramos a mudança. Tem a ver também com a flexibilidade interpessoal para lidar com opiniões diferentes e a abertura para aprender com o novo.

O trabalho interior da liderança

Da mesma forma que o treino na academia, o trabalho para desenvolver a prontidão cognitiva precisa ser regular e moderado de acordo com a experiência do praticante.

Sabemos que para adquirir força e resistência, por exemplo, não basta fazer uma aula experimental na academia, nem tão pouco passar um final de semana inteiro malhando.

Dessa forma, o trabalho interior da liderança para cultivar a mente e suas valências deve ser encarado como um modo de vida. Requer intenção, paciência e persistência para começar e sustentar a prática.

A vantagem deste tipo de treinamento é que uma coisa muda tudo. Realizamos um único exercício que trabalha ao mesmo tempo de 7 a 15 valências. Um dos exercícios para a mente-corpo que tem seus efeitos validados pela ciência chama-se mindfulness, ou atenção plena na tradução livre aqui no Brasil.

A neurocientista Sara Lazar mostra que a prática de mindfulness pode realmente mudar o tamanho de regiões-chave do nosso cérebro, melhorando nossa memória e tornando-nos mais empáticos, compassivos e resistentes ao estresse.

Podemos entender mindfulness como a consciência que emerge quando prestamos atenção ao momento presente, de forma intencional e sem julgamentos. Ou seja, refere-se a uma atividade e a um estado mental, ao mesmo tempo.

Como começar a desenvolver essa competência?

Podemos tirar de 3 a 5 minutos antes de começarmos uma reunião, por exemplo, para praticarmos o exercício A.CO.R.D.A (Ambiente, Corpo, Respiração, Discernimento e Ambiente).

Esta prática breve desliga nosso piloto automático, suspendendo o pensamento crítico compulsivo, despertando a consciência situacional e abrindo espaço para tomarmos melhores escolhas no momento.

  1. Assumindo uma postura corporal alerta e relaxada, apoiando os pés totalmente no chão, inspirando profundamente e soltando a expiração devagar e atentamente, relaxando a face, os ombros e alinhando a coluna e o pescoço.
  2. Prestando a atenção ao Ambiente sem interpretar ou julgar: Notando os sons… A luminosidade… A temperatura… O espaço que você ocupa…
  3. Sentindo agora o seu Corpo, notando qualquer impulso sem reagir a partir dele: O contato com a cadeira ou superfície… O peso e a relação com a gravidade… As sensações físicas…
  4. Agora, focando especialmente nos movimentos da respiração: Sentindo o ar entrando e saindo pelas narinas… notando os movimentos do tórax ou do abdômen… Sendo a respiração por alguns segundos…
  5. Discernindo sobre sua intenção para o próximo momento: o que é realmente importante… Como você quer se comportar…
  6. Retornando para as percepções do Ambiente: Sons, espaço… fazendo a transição consciente para a ação no próximo instante.

Reservar momentos ao longo do dia para cultivar este estado pode fazer toda a diferença.

A propósito, como está seu trabalho pessoal? O que você faz para ampliar seus recursos internos e lidar melhor com este contexto VUCA?

Sabemos que não existem atalhos quando queremos adquirir um novo hábito ou mesmo desenvolver uma nova habilidade. Leva tempo e requer intenção, atenção e atitude. A boa notícia é que podemos justamente usar o trabalho como oportunidade de crescimento interior.

O trabalho interior da liderança

Costumo dizer que depende do óculos que usamos para ver o trabalho. É muito comum utilizarmos o óculos do guerrilheiro e enxergarmos o “trabalho como um campo de batalha” e então ficamos entrincheirados em nossos velhos e conhecidos pontos de vista, lutando para não perder. A pergunta que sustentamos é: “Como faço para ganhar?”

Outro óculos muito comum é o do prisioneiro e então passamos a ver o “trabalho como uma prisão” e daí tudo que planejamos e fazemos é para fugir. Consumimos grande parte da nossa energia e de nosso time com uma projeção idealizada e que quase nunca chega. A pergunta que fica é: “Como posso escapar?”

Outro óculos menos comum mas que pode servir para o autodesenvolvimento é o do principiante e então escolhemos ver o “trabalho como novidade“. Utilizamos a mente aberta e um olhar curioso para a oportunidade de aprender a todo o momento. Aqui a pergunta é: “O que tenho que aprender com isso?”

Avalie no seu dia-a-dia qual o óculos você tem usado e faça suas escolhas a cada momento. Afinal, como disse o escritor francês Marcel Proust, a verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.

TONI BARROS, administrador e instrutor sênior certificado pelo mindfulness trainings international, começou a praticar mindfulness em 2009 e após 12 anos na carreira comercial corporativa sentiu o chamado para levar a prática para mais pessoas e organizações. Toni é o iniciador da Maestria Plena. Membro da Abramind, rede de instrutores que tem por missão semear a prática, a aprendizagem e o conhecimento de mindfulness para o bem-estar e a paz.

Em 2016 liderou o u.lab em florianópolis, programa mundial do MIT para agentes de mudanças com foco em inovação social. Co-facilitou o programa para lideranças jornada da autenticidade.

https://www.maestriaplena.com.br/

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