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Como mapear seu estilo de liderança e facilitação?

Trabalhando com grupos, como líder, gestor, professor ou facilitador, percebemos que tão importante quanto o que fazemos é o como fazemos, e a importância da autoconsciência e reflexão antes e durante esses momentos com grupos. Além de pensar no formato da aula ou no design do encontro, nas ferramentas e conteúdo que serão usadas e apresentados, é importante pensar também como o grupo e cada indivíduo será abordado, para garantir que eles estejam engajados e entusiasmados para participar no processo. Para falarmos dessa abordagem, começamos a explorar neste artigo o conceito de estilo de liderança e facilitação.

Por quê é importante ter consciência disso? A palavra “estilo” está ligada à personalidade e se conecta também com com ideia de criatividade e arte. Ter consciência do seu estilo é reconhecer seu jeito de lidar e facilitar, e assim poder se autoconhecer. Saber melhor o seu estilo abre oportunidades para autodesenvolvimento.

Além da importância para o autodesenvolvimento, o mapeamento do estilo de liderança e facilitação também permite que o facilitador adapte-o de acordo com as necessidades do grupo e do processo. Dependendo do momento em que o grupo está ou de quem está no seu grupo, você como líder ou facilitador terá que adaptar o seu estilo para não perder o engajamento e a energia.

Acreditamos que esse poder e flexibilidade de ajustar o seu estilo de acordo com o grupo é uma habilidade essencial de líderes do futuro. Por esse motivo usamos a palavra “líder” e “facilitador” de forma intercambiável no contexto desse artigo.

Quais são os estilos de liderança e facilitação?

Antes de apresentarmos o nosso olhar sobre estilos, compartilhamos uma breve revisão das principais referências e teorias que embasam nossas ideias.

Existem diversas teorias que falam sobre estilos em relação à facilitação de grupos. Várias delas são baseadas em teorias sobre liderança, entre eles a teoria de Liderança Situacional, que é uma das mais usadas.

Essa teoria trata de quatro estilos principais de liderança, baseados no nível de maturidade do grupo liderado. Inicialmente criada para liderança de indivíduos (subordinados, colaboradores, empregados), ela aqui é apresentada no contexto de grupo (ou liderados).

  • Direção: a liderança ocorre quando o grupo necessita aprender a tarefa a ser executada, sendo o líder supervisor da tarefa até seu fim, direcionando o grupo para elaborá-la até conquistar confiança.
  • Orientação: este estilo de liderança ocorre quando o grupo necessita conhecer a tarefa e conquistar um estímulo para execução dela. O líder contribui apoiando a obtenção de novas idéias e disseminando conhecimento quando o grupo necessita de ajuda.
  • Apoio: o líder se encarrega de estimular o grupo a adquirir segurança e buscar o aprendizado, aumentando suas habilidades e conhecimento, dando mais respaldo para o liderado executar suas tarefas. O líder presta apoio, porém supervisiona pouco.
  • Delegação: ela ocorre quando o grupo possui maior autonomia e liberdade, tendo conhecimento e segurança com as tarefas. O líder mantém um contato com pouca supervisão e pouco apoio. Muitas vezes o grupo inclusive tem autoridade para decisões de mudanças ambientais conforme o nível hierárquico.

A teoria da Patricia Prendiville no livro ‘Desenvolvendo Habilidades de Facilitação’ usa esses mesmos quatro estilos para falar sobre facilitação de grupos, entretanto ela fala de Exploração (ao em vez de Orientação) e Participação (ao em vez de Apoio). Teorias que complementam essa, como da Associação de Qualidade e Participação, usa nomes de estilos como “Coaching” e “Encorajando”; e ainda outras usam diferentes palavras para descrever mais ou menos os mesmos estilos.

Outro grupo de teorias tratam de diferentes aspectos de facilitação em termos de espectros. Esther Cameron descreve três dimensões principais: Energia (oscilando entre ativa e reflexiva), Orientação (de teórica a experiencial) e Controle (de agressivo a passivo). John D. Farrell explora no livro “The Practical Guide to Facilitation: A Self Study Resource” as dimensões de Organização (Desestruturado ou Detalhado), Forçar a ideia do facilitador (Dar direção ou Não dar direção) e Reação ao grupo (Reservado ou Extrovertido).

Nesse estudo de Wayne J. Vick do Facilitation Center, ele oferece um overview de todos os estilos de facilitação [artigo em inglês]:

O que todos esses aspectos têm em comum

No estudo dessas nomenclaturas mais utilizadas, dá para perceber que tratam sobre aspectos semelhantes quando falam de ‘estilo’. Quais são esses aspectos que eles têm em comum?

Energia

Em primeiro lugar, tratam qualidade e quantidade de energia que o facilitador ou líder tem ou demonstra quando está na frente de um grupo. De um lado do espectro essa energia é alta, aparente pelo tom e volume de voz ou movimentação corporal, e no outro lado a energia é reflexiva, com movimentos mais leves, e geralmente acompanhados com a voz mais pausada ou baixa.

Experiência do Conteúdo

Um segundo aspecto é como o grupo vivencia o conteúdo que estão trabalhando. O espectro vai de teórico à experiencial. No estilo mais teórico trata-se de conceitos, abstrações, conteúdos e teorias. Enquanto isso o estilo mais experiencial traz a vivência dos participantes (no momento ou passadas) como conteúdo a ser trabalhado.

Influência

Um terceiro aspecto que os estilos têm em comum é o grau de influência do facilitador. Diversas teorias usam o termo ‘controle’. Liderar com grande influência significa guiar fortemente o grupo no passo-a-passo, seja pelo controle do tempo, questionamentos ou etapas do processo. Quando usa-se de menor influência, é dada maior autonomia ao grupo para explorar e descobrir seu próprio processo, perguntas e até mesmo gestão do tempo.

Origem do Conhecimento

Como base de qualquer processo, temos o aporte de conteúdos, de conhecimentos – teóricos ou práticos, implícitos ou explícitos. De um lado do espectro, o líder se considera “especialista” no assunto e traz o conhecimento (“eu sei”), enquanto no outro lado do espectro o líder percebe que o grupo é que detém o conhecimento (“eles sabem”).

Participação do Grupo

O último fator em comum fala sobre participação do grupo. Existem espaços onde o grupo participa pouco enquanto outros momentos onde o grupo participa e interage bastante. Como estilo de liderança, esse aspecto diz respeito à forma de liderar e como a participação é “permitida” (e incentivada) pelo líder, facilitador ou professor.

Como você pode mapear o seu estilo olhando para esses aspectos?

Essa releitura das teorias mais conhecidas traz duas proposições fundamentais:

  1. Não existem “estereótipos” de liderança. Acreditamos que podemos ter diferentes combinações dinâmicas olhando as 5 dimensões, e não apenas algumas poucas “caixinhas” com nomes e características. Embora elas nos ofereçam modelos simples de compreender, elas estão distantes da realidade por não incorporarem as nuances e dinâmicas sutis da arte de liderar.
  2. Não existe certo ou errado. Cada combinação de aspectos pode ser a mais adequada ou não para cada momento, dependendo do grupo, do contexto e do resultado que se busca. O líder que se conhece e busca se desenvolver é aquele que entende isso e é capaz de mudar seu estilo constantemente e se adequar ao que se faz necessário.

Acreditamos que os estilos apresentados nas teorias mais conhecidas apresentem só algumas configurações dos aspectos e dimensões de facilitação, ou seja estereótipos de liderança. Um jeito mais adequado para mapear o seu estilo é olhar nas dimensões como eles fossem espectros em que você pode se posicionar. Por isso, criamos o termo Equalizador de Liderança e Facilitação.

Tal qual um equalizador de músicas, o líder tem a possibilidade de imaginar qual o “tipo de música” necessário e fazer os ajustes em tempo real na frente de seu grupo de liderados, tal qual fosse um DJ em frente a uma pista de dança, de forma dinâmica, intuitiva, artística.

Um bom DJ é aquele que tem repertório (álbuns), bom equipamento (mesa) e um senso artístico de empatia com seu público, capaz de se conectar com o que eles precisam, e guiá-los ao resultado esperado. Um bom líder, da mesma forma, tem repertório (capacidade de navegar entre diferentes aspectos e pontos do espectro), equipamento (caixa de ferramentas e conhecimentos) e um senso de autenticidade, propósito e empatia que engaja e empodera.

Como usar o Equalizador de Liderança e Facilitação

Em nossos cursos e workshops, convidamos os participantes a refletir sobre seus estilos pessoais, a observarem a suas próprias práticas em grupos, e elegerem o seu estilo “preferido”, ou “usual”. Como eu atuo como líder no meu dia-a-dia, normalmente? Para isso basta marcar no espectro do equalizador para cada um dos 5 aspectos apresentados.

Quando trabalhamos no desenvolvimento de lideranças por um período maior (por exemplo 2 dias), convidamos cada participante a se desafiar, e escolher certas áreas onde gostaria de aprender mais, praticar, expandir o seu repertório e flexibilidade. Onde você se desafiaria?

Convidamos você também a fazer o mesmo. Baixe o Equalizador de Liderança e Facilitação, e faça a si mesmo essas perguntas. Deixe aqui abaixo nos comentários suas dúvidas e reflexões. Experimente mudar o seu estilo (um aspecto de cada vez) com sua equipe de liderados, e observe a mudança. Peça feedback. Seja curioso. Manifeste o seu melhor potencial!